segunda-feira, 13 de abril de 2009

UM NOVO CREDO

Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas as religiões existentes e por existir.

Deus que precede todos os batismos, preexiste aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas.

Livre de teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.

Creio no Deus que não tem religião, criador do universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos.

Deus ourives em cada ínfimo elo das partículas elementares, da requintada arquitetura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.

Creio no Deus que se faz sacramento em tudo que aproxima, atrai, enlaça, abraça e une - o amor. Todo amor é deus e Deus é o real.

Em se tratando de Deus, bem diz o pensador islâmico Rumî, não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.

Creio no Deus que se faz refração na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer.

Creio em teofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver o Outro que não sou eu.

Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem, no entanto conseguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.

Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo.

Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas.

Deus que extrapola a nossa fé, discorda dos nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere basflêmias.

Creio no Deus que, na minha infância, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namorada.

Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a Lua para enfeitar a noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanheceres.

Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual.

Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio do palco do coração e, soada a música, arrebata-nos à saciedade.

Creio no Deus do estupor de Maria, da trilha laboral da formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.

Creio no Deus que se esconde no avesso da razão atéia, observa o empenho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.

Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao hediondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha à nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de estultices humanas.

Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo ministério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nossa Criação sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso ato de fé.

Frei Beto

Urubus e sabiás

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que bichos falavam...
Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para canto, decidiram que, mesmo contra a natureza, eles haveriam de se tornar cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejavam dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam permissão de mandar nos outros.
Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em inicio de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamavam por vossa excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida.
A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas com os sabiás...os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

- "Onde estão os documentos dos seus concursos?" E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam, simplesmente...
- " Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem ".

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam de alvarás...
Moral: Em terra de urubus diplomados não se houve o canto de sabiá

Rubem Alves
Mário Quintana e o sermão de casamento

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:

'Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?'

Acho simplista e um pouco fora da realidade.

Dou aqui novas sugestões de sermões:

'Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

Promete se deixar conhecer?

Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher.

Declaro-os maduros!

À PROCURA DE DEUS

À PROCURA DE DEUS

W. TOZER



Introdução

“Acima dos ruído das luta cotidianaOuve-se a voz do Filho do Homem”

Sobre o conteúdo do livro Samuel M. Zwemer diz: “Trata-se, pois, não de uma teologia da mente, mas do coração”.

Capítulo 1

SEGUINDO A DEUS DE PERTO

...Antes de um homem poder buscar a deus, deus tem que buscá-lo primeiro.
Procuramos Deus porque, e somente porque, ele primeiramente colocou em nós o anseio que nos lança nessa busca. (Jo. 6.44)... é justamente através deste trazer previamente, que Deus tira de nós todo vestígio de mérito pelo ato de os achegarmos a Ele. O impulso de buscar a Deus, origina-se em Deus, mas a realização do impulso depende de o seguirmos de todo o coração. E durante todo o tempo que o buscamos, já estamos sem suas mão...

Esse intercâmbio, entre Deus e a alma ... é uma experiência pessoal, isto é, não vem através da igreja como Corpo, mas precisa ser vivida por cada membro.

Encontrar-se com o Senhor, e mesmo assim continuar a busca-lo, é o paradoxo da vida que ama a Deus.

Uma vida cristã estagnada, infrutífera é resultado da ausência de uma sede maior de comunhão com Deus. A complacência é inimigo mortal do crescimento cristão. Se não existir um desejo profundo de comunhão, não haverá manifestação de Cristo para o seu povo.“A simplicidade existente em Cristo raramente se acha entre nós, em lugar disso, vêem-se apenas programas, métodos, organizações e um mundo de atividades animadas, que ocupam o tempo e a atenção, mas que jamais podem satisfazer a fome da alma. A superficialidade de nossas experiências íntimas, a forma vazia de nossa adoração, e aquela servil adoração, e aquela servil imitação do mundo, que caracteriza nossos métodos promocionais, tudo testifica que nós, em nossos dias, conhecemos a Deus apenas imperfeitamente, e que raramente experimentamos sua paz.Se desejamos encontrar Deus em meio a todas as exteriorizações religiosas, primeiramente temos que resolver busca-lo, e daí por diante prosseguir no caminho da simplicidade. Agora, como sempre o fez Deus revela-se aos pequeninos, e oculta-se daqueles que são sábios e prudentes aos seus próprios olhos. É mister que simplifiquemos a nossa maneira de nos aproximar dele. Urge que fiquemos tão somente como que é essencial (e felizmente, bem poucas coisas são essenciais).Devemos deixar de lado todo esforço para impressiona-lo e ir a Deus com singeleza de coração da criança.Se agirmos dessa forma, Deus nos responderá sem demora.”Não precisamos temer que, se visarmos tão somente a comunhão com Deus, estejamos limitando nossa vida ou nossos impulsos naturais do coração. O oposto é que é verdade. Convém-nos perfeitamente fazer de Deus nosso tudo, concentrarmos nele, e sacrificarmos tudo por causa dele."

Capitulo 2

A BENÇÃO DE NÃO POSSUIR NADA

As raízes do nosso coração penetraram fundo nas coisas, e não ousamos arrancar nenhuma delas, com receio de morrer. As coisas se tornaram necessárias para nós, de um modo que jamais foi a intenção de Deus...
O Senhor Jesus se referiu a tirania das coisas quando disse aos seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Portanto, quem quiser salvar a sua vida, pede-la-á, e quem perder a vida por minha causa, acha-la –á” (Mt 16.24, 25)

Os pobres e bem aventurados são aqueles que já não são mais escravos das coisas, que quebraram o jugo opressor; e conseguiram, não lutando, mas entregando tudo ao Senhor. Embora libertos do sentimento de posse, contudo possuem tudo: “Deles é o reino do céu”.

O homem tem que aproximar-se de Deus completamente resolvido a ser ouvido, e fazer questão absoluta de que Deus aceite sua entrega total, que retire do seu coração todas as coisas, afim de que Ele mesmo reine ali soberanamente.

Nunca devemos nos esquecer de que verdades como essas jamais poderão ser aprendidas a penas com a mente, como acontece com os fatos da ciência física, temos que conhecê-las experimentalmente, para que possamos realmente compreendê-las.

Se quisermos de fato conhecer a Deus em crescente intimidade, precisamos palmilhar o caminho da renúncia.

Tudo quanto for entregue a Ele fica em perfeita segurança, pois, na realidade, nada está garantido enquanto não for entregue a ele.Pai, desejo conhecer-te, mas meu coração covarde teme desistir de seus brinquedos. E não posso desfazer-me deles sem antes sangrar-me por dentro, e não procuro esconder de ti o terror da separação. Venho tremendo, mas venho. Por favor, extirpa do meu coração todas aquelas coisas que estou amando a tanto tempo, e que se têm tornado parte integrante deste “viver para mim mesmo, afim de que tu possas entrar e habitar a li sem qualquer rival...”
Capítulo 3

REMOVENDO O VÉU“Formaste-nos para ti e nossos corações não terão sossego enquanto não encontrarem descanso em ti.” Agostinho

Até certo ponto Deus se deixa revelar na natureza, mas sua revelação mais perfeita é a da encarnação; e agora espera poder mostrar-se na mais completa plenitude para os humildes de espírito e para os puros de coração.
O mundo está perecendo por não conhecer a Deus, e a Igreja padece fome espiritual por não contar com sua presença.

Penetrar além do véu e reivindicar uma experiência sensível e viva na presença do Senhor é um privilégio outorgado a todos os filhos de Deus...
Sentimos que o chamado é para nós; e contudo, não queremos nos aproximar, e os anos se passam , e envelhecemos, e ficamos exaustos nos átrios exteriores do tabernáculo. O que nos impede de entrar?
Trata-se do véu compacto de uma vida egocêntrica, que nunca quisemos realmente reconhecer como tal, da qual intimamente nos sentimos envergonhados, e por isto nunca a trazemos ante o tribunal da cruz.
As mais graves manifestações desses pecados - o egocentrismo, o exibicionismo, a autopromoção – são estranhamente toleradas em lideres evangélicos ...em nossos dias eles parecem ser um requisito para a popularidade de alguém , em certos círculos da igreja visível. A autopromoção à guisa de se fazer promoção de Cristo, atualmente é algo tão comum que nem mais chama a tenção.

O “ego” é um véu sombrio, que oculta de nós face de Deus. Só pode ser removido a través de uma experiência do espírito, nunca por meio de instrução intelectual.
Tenhamos cuidado de não subestimar a importância da vida espiritual, achando que nós mesmo podemos rasgar o véu. Deus é quem deve fazer tudo em nosso lugar. Nossa parte consiste em ceder e confiar. É necessário que confessemos e repudiemos uma vida autodirigida, e passemos a considera-la crucificada. Urge, entretanto, distinguir entre uma “aceitação” ociosa e uma verdadeira operação de Deus. Devemos perseverar até que a obra seja realizada.

A CRUZ É RUDE E MORTAL, MAS TAMBÉM É EFICAZ, NÃO CONSERVA SUA VÍTIMA ALI DEPENDURADA PARA SEMPRE.

Senhor... mostra-nos como se morre, para que ressuscitemos em novidade de vida. Rompa o vê da nossa vida própria, de alto a baixo, como fizeste ao véu do templo; queremos chegar perto de ti, em plena certeza de fé; desejamos habitar contigo na vida diária, neste mundo, afim de que estejamos habituados à glória, quando penetrarmos em teu céu, para contigo habitar para sempre. Em nome de Jesus. Amém.

Capítulo 4

SENTINDO A REALIDADE DE DEUS


Deus pode ser conhecido em experiência pessoal.

...em nosso coração possuímos faculdades pr intermédio das quais podemos conhecer a Deus tão bem como conhecemos as coisas materiais, através dos cinco sentidos...

A fé capacita nossos sentidos espirituais a funcionar.

Existe a nossa volta um reino espiritual, cercando-nos, envolvendo-nos, bem ao alcance de nosso espírito, esperando que o reconheçamos.

Deus também é real. Ele é real no sentido máximo e absoluto do termo, de modo que nada é tão real quanto ele.... Deus possui existência objetiva e independente de qualquer noção que porventura tenhamos acerca dele. O coração que o adora não cria o objeto dessa adoração. Já o encontra aqui, quando, pela regeneração, desperta do seu sono moral.

Deus e o mundo espiritual são reais. Podemos aceitá-lo com tanta certeza quanto aceitamos este nosso mundo material em que vivemos. AS coisas espirituais estão bem presentes aqui, exigindo nossa atenção e desafiando-nos a que depositemos nela toda nossa confiança.

O MUNDO DOS SENTIDOS DESTACA-SE DIANTE DE NÓS, DIA E NOITE, DURANTE TODA NOSSA EXISTÊNCIA TERRENA. É UM MUNDO BARULHENTO, INSISTENTE, AUTOPROMOTOR. NÃO FAZ NENHUM APELO À NOSSA FÉ; ESTÁ AQUI, APELANDO AOS NOSSOS CINCO SENTIDOS, EXIGINDO SER ACEITO COMO REAL E ÚNICO.

No próprio cerne da vida cristã existe uma crença no invisível. O objeto da fé cristã é uma realidade invisível.

É NECESSÁRIO, POIS, QUE RETIREMOS QUE RETIREMOS NOSSOS INTERESSES DO QUE É VISÍVEL E TRANSFIRAMOS PARA O QUE É INVISÍVEL. POIS A GRANDE REALIDADE INVISÍVEL É DEUS.

Se verdadeiramente desejamos seguir a Deus, temos que procurar ficar “fora do mundo”. Digo isto perfeitamente cônscio de que a experessão tem sido aplicada aos crentes pelos filhos deste mundo, em tom de zombaria. POIS QUE SEJA ASSIM. TODO HOEMEM TEM QUE ESCOLHER SEU PRÓPRIO MUNDO. Se nós, que seguimos a Cristo, com todos os fatos perante nós, e sabendo onde nos encontramos, deliberadamente preferimos o reino de Deus como nossa esfera de interesse , não vejo razão porque alguém teria o direito de levantar qualquer objeção. O “outro mundo”, que é o objeto do desdém dos homens deste mundo, e tema das canções zombeteiras dos bêbados, É O NOSSO DESTINO, POR NÓS ESCOLHIODO COM TODO EMPENHO, E OBJETO DE NOSSOS DESEJOS MAIS ELEVADOS.

A alma tem olhos com os quais pode ver e ouvidos com os quais pode ouvir.

Quando passamos a concentrar nossa vida em Deus, as coisas do espírito vão começar a tomar forma, perante os olhos da nossa alma.

Deus, torna o céu mais real pra mim do que qualquer coisa terrena o tem sido.

Capítulo 5

A ONIPRESENÇA DE DEUS

Deus está aqui. Onde quer que nos encontremos, Deus está.

Os homens não sabem que Deus está aqui. Que diferença haveria se o soubessem!

Mas, ele somente se manifesta quando temos consciência de sua presença. De nossa parte, deve haver rendição ao Espírito Santo, cuja tarefa consiste em revelar-nos o Pai e o Filho. Se nos submetermos a ele, obedecendo-o de boa vontade, Deus se manifestará a nós, e esta manifestação será a diferença entre ser cristão só de nome e ter uma vida irradiada de luz divina.

Nossa busca de Deus é bem-sucedida justamente porque ele próprio está sempre procurando manifestar-se a nós.

A sensibilidade espiritual depende exclusivamente de nós mesmos. Pode crescer através do exercício, ou pode definhar pela negligência. Não é uma força soberana e irresistível que nos sobrevém de repente. Realmente é um dom de Deus, mas que deve ser reconhecido e cultivado.

Temos procurado aplicar os métodos mecânicos de nossa época às nossas relação com Deus.
Os resultados trágicos dessa atitude são visíveis. VIDAS SUPERFICIAIS, VÃS FILOSOFIAS RELIGIOSAS, CULTOS EVANGÉLICOS EM QUE A PREOCUPAÇÃO É UMA PROGRAMAÇÃO AGRADÁVEL, A GLORIFICAÇÃO DE HOMENS, A CONFIANÇA NA APARÊNCIA RELIGIOSA, EM ASSOCIAÇÕES RELIGIOSAS SEM QUALQUER REALIDADE ESPIRITUAL, O EMPREGO DE MÉTODOS SECULARES NA VIDA DA IGREJA, FALTA DE DISCERNIMENTO ENTRE PERSONALIDADE DINÂMICA E O PODER DO ESPÍRITO: ESSAS E OUTRAS COISAS PARECIDAS SÃO OS SINTOMAS DE UMA HORRÍVEL ENFERMIDADE, DE UMA PROFUNDA E GRAVE ENFERMIDADE DA ALMA.

É MISTER UM CORAÇÃO RESOLUTO, E UMA CORAGEM ILIMITADA, PARA NOS DESPRENDERMOS DAS CADEIAS DE NOSSA ÉPOCA E RETORNARMOS AOS CAMINHOS BÍBLICOS.

Não digo que eu saiba o que Deus, em sua soberania, ainda poderá vir a fazer em uma escala mundial, mas o que ele fará por um homem simples, que busque a sua face, creio que sei, e posso dizer. Qualquer homem que se dedicar inteiramente a Deus, começar a exercitar sua vida espiritual, mediante confiança, obediência e humildade, verá que os resultados ultrapassarão a tudo que ele poderia desejar em seus momentos de mais intensa busca.

Concluindo: a onipresença de Deus é um fato. Deus está aqui. O universo inteiro está vivo pela sua vida. E ele não é um Deus estranho ou alheio, mas, antes, é o pai de nosso Senhor, Jesus Cristo, cujo amor, há dois mil anos, tem envolvido a raça humana pecaminosa. E sempre busca nossa atenção, desejando revelar-se a nós e comunicar-se conosco. Temos em nós mesmos a possibilidade de conhece-lo, se tão somente atendermos ao seu chamado. (E a isto chamamos de estar à procura de Deus!) E o conheceremos cada vez mais, a medida que nossa receptividade for sendo aperfeiçoada através da fé, do amor e da prática.


Ó Deus e Pai, arrependo-me da maneira exagerada com que tenho me preocupado com as coisas materiais. O mundo tem imperado de mais em mim. Tu estas aqui o tempo todo e eu não sabia. Tenho estado cego para a tua divina presença. Abre os meus olhos para que eu te contemple em mim e ao meu redor. Em nome de Jesus, amém.

Capítulo 6

A VOZ DO VERBO

A voz divina continua ecoando, chamando. A ordem e a vida do mundo dependem totalmente dessa voz, mas os homens estão por demais atarefados ou são teimosos de mais para dar-lhe qualquer atenção

As igrejas, de um modo geral, aceitam a grande heresia de que fazer barulho , ser grande e ativa, torna-as mais preciosas pára Deus. Ma, não devemos desanimara, pois há um povo atingido pela tormenta do último e maior de todos os conflitos que Deus diz: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus (Sl 46.10) E ele ainda diz o mesmo hoje, como se quisesse informar-nos de que NOSSA SEGURANÇA DEPENDEM NÃO TANTO DE NOSSA AGITAÇÃO, MAS DO NOSSO SILÊNCIO E SERENIDADE.

Ensina-nos Senhor a escutar. Esta época é barulhenta e os meus ouvidos estão cansados de milhares de sons roucos que continuamente o assaltam. Dá-me o espírito do menino Samuel, que disse ‘Fala, porque o teu servo ouve.” Deixa-me ouvir a tua voz no meu coração. Permita-me ficar habituado ao som da tua voz, de modo que ele me seja familiar , quando os sons da terra fenecerem, e o único som existente vier a ser a música da tua voz. Amem



Capítulo 7

O DESLUMBRAMENTO DA ALMA


... esse grande ato da vontade a que firma o propósito do coração de contemplar para sempre o Senhor Jesus. Deus aceita essa intenção como escolha nossa e ignora os mil e um motivos de dispersa, que nos assediam nesse mundo mau. Ele sabe que fixamos em Jesus a nossa vida, e nós também sabemos disso, e nos consolamos na certeza de que o hábito de voltarmos para ele está formando em nosso íntimo, e que após algum tempo haverá de transformar-se numa espécie de reflexo natural do espírito, que não requererá mais nenhum esforço, consciente de nossa parte.

Enquanto estivermos na contemplação de Deus, não veremos a nós mesmos- bendito seja esse desprendimento.

E quando estiver olhando para Cristo, as próprias coisas que por tanto tempo vem tentando fazer, serão finalmente realizadas dentro dele(do homem).Será Deus a operar nele tanto o agir como o efetuar.

A fé olha para fora de si mesma, em lugar de olhar para dentro, para o “eu”, e assim todas as áreas da vida se encaixam conforme o padrão divino.

Posto que crer é olhar, isto pode ser feito sem qualquer formalidade ou ritos religiosos.


Nossa maneira de servir a Deus, o trabalho que executamos com diligencia e as funções que exercemos - tudo isso é bom e deveria ser executado por todo crente. Mas sempre deve estar presente em nós esta contemplação ao Senhor , que é o que dá sentido a todas as práticas.

...se cem crentes estão reunidos, e cada um olhar para Cristo, nos seus corações, eles estão mais ligados entre si, do que se passassem a buscar esta unidade, mas para isso, desviassem os olhos de Deus. Assim sendo, toda Igreja é aperfeiçoada quando a vida de cada crente é purificada.

A nossa habitação será em Deus mesmo quando nossos pés ainda estiverem trilhando a estrada terrena do dever comum, aqui entre nossos semelhantes.

Senhor, ouvi uma voz bondosa convidando-me a olhar fixamente para ti, para ser saciado. Meu coração deseja atender a ela, mas o pecado obscureceu minha visão, de tal maneira que só te vejo vagamente. Se propício a mim e purifica-me com teu sangue precioso, tornando-me puro no íntimo, afim de que, de olhos desvendados, eu possa contemplar-me todos os dias de minha peregrinação neste mundo...

Capítulo 8

A RESTAURAÇÃO DA COMUNHÃO ENTRE O CRIADOR E A CRIATURA


A partir do momento em que resolvemos por em prática a decisão de exaltar a Deus acima de tudo, nós deixamos de seguir o resto da humanidade. Descobrimos, então, que estamos desajustados no tocante as coisas do mundo e isto se acentuará cada vez mais à medida que formos progredindo nos caminhos de Deus. Adquirimos uma nova perspectiva;uma nova mentalidade será formada dentro de nós;e ficaremos surpreendidos como o novo poder que fluirá de nossa pessoa.

Ninguém de vê pensar que o fato de entregarmos tudo a Deus vai ferir nossa dignidade humana. Isto não nos desmerece como seres humanos, pelo contrario, recebemos um lugar de maior honra justamente através desta rendição, uma vez que somos criados a imagem do Criador... Quando exaltamos a Deus acima de tudo, descobrimos que estamos colocando nossa própria dignidade em alto nível.

O pecador ufana-se de sua própria independência, totalmente inconsciente de que é um pobre escravo do pecado, sendo este quem governa os seus membros....

Quando nos arrogamos o direito ao lugar que é Del, toda a nossa vida se torna desarticulada.

Deus quer tudo que há em nós, e não descansará enquanto não atingir completamente o seu alvo.

Ó Deus, sê tu exaltado acima de tudo que possuo. Nenhum dos tesouros da terra será importante demais para mim, contudo que sejas glorificado em minha vida. Sê tu exaltado acima das minhas amizades, pois decidi que estarás acima de tudo, ainda que eu tenha que ficar isolado e sozinho no meio da Terra. Sê tu exaltado acima de todas as minhas comodidades. Ainda que isto signifique perder o conforto material e carregar uma cruz pesada, cumprirei o meu voto perante ti diariamente. Sê tu exaltado acima da minha reputação. Faz com que minha ambição seja agradar-te, ainda que, em resultado disso, eu tenha que ficar na obscuridade e o meu nome seja esquecido como um sonho passageiro.
Levanta-te, ó Senhor, e ocupa o lugar de honra que a ti pertence, acima das minhas ambições, acima dos meus gostos e desprazeres, cima da minha família, de minha saúde e até de minha própria vida. Que eu diminua, para que tu sejas exaltado; que eu desapareça, para que tu sejas elevado mais e mais. Usa-me como usaste o jumentinho, ao entrares em Jerusalém, e deixa-me ouvir as crianças te glorificarem: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem. O reino de nosso pai Davi! Hosana, nas maiores alturas!” (Mc 11.9,10)

Capítulo 9

MANSIDÃO E DESCANSO

Enquanto o homem se considerar um pequeno Deus, ao qual deve tributar sua lealdade, haverão sempre aqueles que se deleitarão em afrontar seu ídolo. Como então, esperamos ter paz interior? O veemente esforço que o coração envida para defender-se contra as injúrias, para proteger a sua honra sensível, contra toda opinião desfavorável da parte de amigos e adversários, jamais permitirá que sua mente goze paz.

O homem manso não se importa se alguém for maior que ele, porque há muito compreendeu que as coisas que o mundo aprecia não são importantes para ele, e não vale a pena lutar por elas.... Sabe perfeitamente bem que o mundo jamais o verá como Deus o vê, e por isto deixou há muito de importar-se como s conceitos dos homens. Sente-se completamente satisfeito em deixar que Deus estabeleça seus valores.

Se andar em mansidão, ele ficará satisfeito em permitir que Deus o defenda. Já não precisa lutar para defender o seu “eu”, porque encontrou a paz que a mansidão proporciona.

“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei.” O descanso oferecido por ele é o descanso da mansidão, aquele alívio bendito que sentimos quando admitimos o que realmente somos e deixamos de Aldo todo fingimento.

Senhor torna meu coração como o de uma criança. Livra-me do impulso de competir com os outros, buscando uma posição mais elevada entre os homens. Desejo ser simples e ingênuo como uma criança. Livra-me das atitudes fingidas e da dissimulação. Perdoa-me por haver pensado tanto em mim. Ajuda-me a esquecer de mim mesmo e a encontrar a verdadeira paz na tua contemplação. A fim de que possas responder a esta oração eu me humilho perante ti. Coloca sobre mim o teu fardo suave do autodesprendimento, para que eu possa encontrar descanso. Amém.

C. S. LEWIS

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES



INTRODUÇÃO

“A geração ímpia e perversa da qual fa­lavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a ma­les sistémicos e individuais como se não tivéssemos ou­tra alternativa.”

"O caminho mais lon­go é o mais curto para chegar em casa"[1] — tal é a lógica tanto das fábulas quanto da fé.”

“Assim como Soren Kierkegaard antes dele, e de Dietrich Bonhoefifer, seu contemporâneo, Lewis bus­cou, em Cristianismo puro e simples, nos ajudar a ver a religião com novos olhos, como uma fé radical cujos par­tidários devem ser comparados a um grupo clandesti­no agrupado numa zona de guerra, num lugar onde o mal parece predominar, para ouvir mensagens de espe­rança vindas do lado livre.”

“E um modo de vida que nos desafia sempre a lembrar, como Lewis disse cer­ta vez, que "não existem pessoas comuns", e que "aque­les de quem fazemos troça, com quem trabalhamos ou nos casamos, os que menosprezamos ou exploramos, são todos imortais"[2]. Quando entramos em sintonia com essa realidade, crê Lewis, nos abrimos para transformar imaginativamente nossas vidas de tal forma que o mal declina e o bem triunfa. E isto que Cristo quis de nós quando tomou para si nossa humanidade, santificou nossa carne e nos pediu em troca que revelássemos Deus uns aos outros. Se o mundo faz essa tarefa parecer impossível, Lewis insiste em que ela não é. Mesmo alguém que ele vê co­mo "envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulgares e brigas gratuitas"[3] pode estar seguro de que Deus está bem ciente "da máquina gros­seira que tenta dirigir", e pede-lhe somente para "ir em frente e fazer o possível". O cristianismo que Lewis co­munga é humano, mas não é fácil: ele nos chama a reco­nhecer que a maior batalha religiosa não se trava num campo espetacular, mas dentro do coração humano co­mum, quando, a cada manhã, acordamos e sentimos a pressão do dia a nos afligir e temos de decidir que tipo de imortais queremos ser.”

“Lewis nos lembra, com seu humor e sua verve costumei­ra: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a di­ferença dos santos!"[4]
KATHLEEN NORRIS

Livro I
O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO


3. A REALIDADE DA LEI

“E claro que podemos dizer que a pedra tem "a forma errada" se pretendemos usá-la para uma construção, ou que uma árvore não é boa porque não faz sombra suficiente. Porém, isso significa tão-so-mente que a pedra ou a árvore não se prestam ao uso que queremos fazer delas; não as culpamos de terem tais ou quais características, a não ser como piada. Te­mos consciência de que, dado um determinado clima e tipo de solo, a árvore não poderia ser em nada dife­rente do que é. A árvore que, de nosso ponto de vista, chamamos de "má" obedece às leis de sua natureza tan­to quanto a que chamamos de "boa"...quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve­riam se comportar)... Os homens, no entanto, comportam-se de determina­da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem­pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.”


5. TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUEITOS

“Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.”

“... o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta - na lealdade, no altruísmo, na co­ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes­se sentido, devemos concordar com a visão do cristia­nismo e de outras religiões de que Deus é "bom".”

“Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder.”

“Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade — terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses­pero.”

Livro IINO QUE ACREDITAM OS CRISTÃOS

1.AS CONCEPÇÕES CONCORRENTES DE DEUS

“Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista.”

2. A INVASÃO

“É uma religião que ninguém poderia adi­vinhar. Se ela nos oferecesse o tipo de universo que es­peraríamos encontrar, eu acharia que ela havia sido in­ventada pelo homem. Porém, a religião cristã não é nada daquilo que esperávamos; apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem.”

“... o cristianismo, se­gundo o qual estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como de­veria ser.”

“Um território ocupado pelo inimigo — assim é este mundo. O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos cha­ma a tomar parte numa grande campanha de sabota­gem.”


3. A ALTERNATIVA ESTARRECEDORA

“A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a fe­licidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um ho­mem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.”

“... a longa e terrível história da tenta­tiva do homem de descobrir a felicidade em outra coisa que não Deus.
A razão pela qual essa tentativa não pode ser bem-sucedida é a seguinte: Deus nos criou como um ho­mem inventa uma máquina. Um carro é feito para ser movido a gasolina. Deus concebeu a máquina humana para ser movida por ele mesmo. O próprio Deus é o com­bustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar. Não existe outro combustível, outro alimento. Esse é o motivo pelo qual não podemos pedir que Deus nos faça felizes e ao mesmo tempo não dar a mínima para a religião. Deus não pode nos dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram. Tal coisa não existe.”

4.O PENITENTE PERFEITO

“Deus chegou sob for­ma humana no território ocupado pelo inimigo.”

“A principal crença cristã é que a morte de Cristo de algum modo acertou nossas contas com Deus e nos deu a possibilidade de começar de novo.”


“Em que tipo de "buraco" caíra o homem? Ele pro­curara ser auto-suficiente e se comportara como se per­tencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero — só isso pode nos "tirar do buraco". Esse processo de rendição, movimen­to de marcha a ré a toda velocidade, é o que o cristia­nismo chama de arrependimento. Mas, veja só, o arre­pendimento não é nada agradável. E bem mais difícil que simplesmente engolir um sapo. Significa desapren­der toda a presunção e a obediência à vontade própria que nos foram incutidas por milhares de anos; signifi­ca matar uma parte de si mesmo e submeter-se a uma espécie de morte.”

“Lembre que esse arrependimento, essa entrega vo­luntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simples­mente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrepen­dimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arre­pender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que signi­fica essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, co­loca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros.”


5. CONCLUSÃO PRÁTICA

“O organismo vivo não se caracteriza por nunca se ferir, mas sim por ter um po­der, mesmo que limitado, de recuperação. Da mesma forma, o cristão não é um homem que nunca erra, mas um homem capaz de se arrepender, de levantar a cabe­ça e seguir em frente após cada queda. Ele é assim por­que a vida de Cristo está dentro dele, sempre pronta para recuperá-lo, habilitando-o a imitar (em certa medida) a morte voluntária que o próprio Cristo levou a cabo.
É por isso que o cristão se encontra numa situação diferente da de outras pessoas que tentam ser boas. Es­tas esperam, por ser boas, agradar a Deus, quando nele acreditam; ou, caso não acreditem, esperam pelo me­nos receber a aprovação dos homens bons. Já o cristão pensa que todo bem que faz advém da vida de Cristo que o anima interiormente. Não pensa que Deus nos amará mais por sermos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos amou primeiro, do mesmo modo que o teto de uma estufa não atrai o sol por ser brilhante, mas brilha porque o sol irradia sobre ele.”


Livro III CONDUTA CRISTÃ

AS TRÊS PARTES DA MORAL

“É impossível tornar o homem bom pela força da lei; e, sem homens bons, não pode haver uma boa sociedade.”

“Parece-nos, portanto, que, para pensar a respeito da moral, temos de levar em conta os três departamentos: as relações entre os homens; as coisas que se passam no interior de cada ser humano; e as relações entre o ho­mem e o poder que o criou.”

AS VIRTUDES CARDEIAIS

“São elas: a PRUDÊN­CIA, a TEMPERANÇA, a JUSTIÇA e a FORTALEZA.”

“Deus não detesta menos os intelectualmente preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pen­sando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará em­barcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclu­sive o cérebro.”

“O homem que transforma suas partidas de golfe ou sua motocicle­ta no centro de sua vida, ou a mulher que dedica todos os seus pensamentos a roupas, a partidas de bridge ou ao seu cachorro, estão sendo tão intemperantes quanto o sujeito que bebe muito. E claro que, visto de fora, o pro­blema não é tão evidente: a mania de golfe ou de bridge não deixa a pessoa caída na sarjeta. Deus, porém, não se deixa enganar pelas aparências.”

“A verdade é que as ações corretas praticadas pelas razões erradas não nos ajudam a construir a qualidade inter­na ou caráter chamada "virtude", e é essa qualidade ou caráter que realmente interessa.”

MORALIDADE SOCIAL

“Nunca teve a intenção de substituir ou destituir as artes e ciências profanas: tem, antes, a função de um diretor que as destina às suas fun­ções corretas e lhes infunde a energia de uma vida nova na medida em que elas se colocam à sua disposição.”

“Posso repetir "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" até cansar, mas não conseguirei vi­ver assim se não amar ao próximo como a mim mes­mo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando apren­der a obedecê-lo. E assim, como eu já tinha dito, somos conduzidos a um aspecto mais interior da questão — saímos da problemática social e entramos na problemá­tica religiosa. O caminho mais longo é o mais curto para chegar em casa.”

MORALIDADE E PSICANÁLISE

“A psicaná­lise em si mesma, porém, separada de todos os enxertos filosóficos feitos por Freud e por outros, não está de for­ma alguma em contradição com o cristianismo.”

“Ora, o que a psicanálise se propõe a fazer é eliminar os sentimentos anormais, ou seja, dar ao homem uma matéria-prima melhor para os seus atos de escolha; a moralidade trata destes atos em si mesmos.”


“O homem pode dar primazia a si mesmo ou aos outros. E este livre-arbítrio é a única coisa da qual a moralidade se ocupa.
O mau material psicológico não é um pecado, mas uma doença. Não é motivo para arrependimento, mas algo a ser curado, o que, por sinal, é muito im­portante. Os seres humanos julgam uns aos outros pe­las ações externas. Deus os julga por suas escolhas mo­rais.”


“Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adorme­cidos.”


MORALIDADE SEXUAL

“Deus conhe­ce nossa situação; ele não nos julgará como se não ti­véssemos dificuldades a superar. O que realmente im­porta é a sinceridade e a firma vontade de superá-las.”

“E bem verdade que os princípios cristãos são mais rígidos que os outros; no entanto, acreditamos que, para obe­decer-lhes, você poderá contar com uma ajuda que não terá para obedecer aos outros.”

“Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a neces­sária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levan­te-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprende­mos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por ou­tro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única ati­tude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.”

“A virtude - mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a liber­tinagem traz apenas brumas.”

“Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais tetríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso por­que existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode es­tar bem mais perto do inferno que uma prostituta. E claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.”

O CASAMENTO CRISTÃO

“O amor nesse segundo sentido - distinto da "paixão amorosa" - não é um mero sentimento. E uma unidade profunda, man­tida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo há­bito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele re­cebem.”

“Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos.”


“Em ambos os casos, se você perseverar, o arrepio da novidade, quando morre, é com­pensado por um interesse mais sereno e duradouro. Além disso (e mal consigo lhe dizer o quanto isto é importan­te), são exatamente as pessoas dispostas a sofrer a perda do frêmito inicial e a acatar esse interesse mais sóbrio que têm maior probabilidade de encontrar novas emo­ções em campos diferentes. O homem que aprendeu a voar e se tornou um bom piloto subitamente descobre a música; o homem que se estabeleceu num local idílico descobre a jardinagem.
Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer. Simplesmente não vale a pena tentar manter viva uma sensação forte e fu­gaz: é a pior coisa que podemos fazer. Deixe o frisson ir embora — deixe-o morrer. Se você passar por esse perío­do de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas, se fizer das emoções for­tes a sua dieta diária e tentar prolongá-las artificialmen­te, elas vão se tornar cada vez mais fracas, cada vez mais raras, até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida.”

O PERDÃO

“Conseqüentemente, o cristianismo não quer ver reduzida a um átomo a aversão que sentimos pela crueldade e pela deslealdade. Devemos odiá-las. Não devemos desdizer nada do que dissemos a esse res­peito. Porém, devemos odiá-las da mesma forma que odiámos nossos próprios atos: sentindo pena do homem que as praticou e tendo, na medida do possível, a esperança de que, de alguma forma, em algum tempo e lu­gar, ele possa ser curado e se tornar novamente um ser humano.”

“Lembre-se de que nós, cristãos, acreditamos que o homem vive eterna­mente. Logo, o que realmente importa são as pequenas marcas deixadas e as pequenas mudanças feitas na parte central e interior da alma, as quais vão nos tornar, a longo prazo, numa criatura celestial ou infernal.”

“Em outras pa­lavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança de­vem ser simplesmente exterminados de dentro de nós. Bem sei que ninguém tem o poder de decidir que, des­te momento em diante, não terá tais sentimentos. As coisas não acontecem assim. Quero somente dizer que, toda vez que esses sentimentos levantarem a cabeça, de­vemos espancá-la — dia após dia, ano após ano, até o fim da nossa vida. É um trabalho árduo, mas não é im­possível tentar executá-lo.”

“Admito que isso significa amar pessoas que não têm nada de amáveis. Mas pergunto: será que eu mesmo sou uma pessoa digna de ser amada? Amo a mim mes­mo simplesmente porque sou eu mesmo. Deus quer que amemos a todas as criaturas, todos os "eus", da mesma forma e pela mesma razão: apenas, no caso pessoal de cada um, já deu o resultado certo da conta para nos en­sinar como é que se soma. Devemos, a partir disso, aplicar a regra a todas as outras pessoas. Talvez isso se tor­ne mais fácil se lembrarmos que é dessa forma que ele nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos pos­suir, mas simplesmente porque cada um de nós é um "eu". Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor: nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...”





O GRANDE PECADO

“Sempre que constatamos que nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons — sobretudo, que somos melhores que os outros —, po­demos ter certeza de que estamos agindo como mario­netes, não de Deus, mas do diabo.”

“Não pense que, se você conhecer um homem verdadeiramente humilde, ele será o que as pessoas cha­mam de "humilde" hoje em dia: não será nem uma pes­soa submissa ou bajuladora, que vive lhe dizendo que não é nada. Provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe di­zer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. Ele não estará pensando so­bre a humildade; não estará pensando em si mesmo de modo algum.”


A CARIDADE

“Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do senti­mento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas.”

“Normalmente, a afeição natural deve ser encorajada. No entanto, seria um erro pensar que o caminho para se obter a caridade consiste em sentar-se e tentar fabri­car bons sentimentos.”

“Não perca tempo perguntando-se se você "ama" o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prá­tica, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa. Quando faz mal a alguém de quem não gosta, passa a desgostar ainda mais dessa pes­soa. Já se, por outro lado, lhe fizer um bem, verá que a aversão diminui.”

“Sempre, porém, que fizermos o bem ao pró­ximo por ser ele um "eu" igual a nós, criado por Deus, que deseja sua própria felicidade como nós desejamos a nossa, teremos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, no mínimo, a desgostar dele um pouco menos.”

“O Bem e o Mal aumentam ambos à velocidade dos juros compostos. E por isso que as pequenas decisões que eu ou você tomamos todos os dias têm tanta im­portância.”

“Aja como se você amasse. Não fique sentado tentando fabricar esse sentimento. Pergunte a si mesmo: "Se es­tivesse certo de que amasse a Deus, o que eu faria?" Quando encontrar a resposta, vá e faça.”

“Ninguém con­segue ter sempre o sentimento de devoção: e, mesmo que conseguisse, não são os sentimentos que mais im­portam a Deus. O amor cristão, seja para com Deus, seja para com os homens, é um assunto da vontade.”


A ESPERANÇA

“A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pen­sa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coi­sas que se espera do cristão.”

“Foi quando os cristãos deixa­ram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ga­nhará a Terra "de lambuja"; se aspirar à Terra, perderá ambos.”

“Tenho de man­ter viva em mim a chama do desejo pela minha verda­deira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esque­cimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também."

A FÉ

“Na verdade, eu partia do pressuposto de que a mente é completa­mente regida pela razão, o que não é verdade.”

“A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou.”

“E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na ver­dade, da qualidade do clima ou da sua digestão naque­le dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.
O primeiro passo para que isso aconteça é reco­nhecer que os sentimentos mudam. O passo seguinte, se você já aceitou o cristianismo, é garantir que algumas de suas principais doutrinas sejam mantidas deliberadamente diante dos olhos de sua mente por alguns mo­mentos do dia, todos os dias. É por esse motivo que as orações diárias, as leituras religiosas e a freqüência aos cultos são partes necessárias da vida cristã. Temos de nos recordar continuamente das coisas em que acreditamos. Nem essa crença nem nenhuma outra podem perma­necer vivas automaticamente em nossa mente. Têm de ser alimentadas. Aliás, se examinarmos um grupo de cem pessoas que perderam a fé no cristianismo, me pergun­to quantas delas o terão abandonado depois de conven­cidas por uma argumentação honesta. Não é verdade que a maior parte das pessoas simplesmente se afasta, como que levadas pela correnteza?”

“Acrescento agora que o segundo passo consiste em empenhar um esforço dedicado para pra­ticar as virtudes cristãs.”

“Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom.”

“A principal coi­sa que aprendemos quando tentamos praticar as virtu­des cristãs é que fracassamos.”

A FÉ

“Quando digo "descobrir", quero dizer exatamente isso: não é o mesmo que repetir palavras como um pa­pagaio. Qualquer criança que tenha recebido a educa­ção cristã mais elementar aprende rapidamente que o homem não tem nada a oferecer a Deus que já não seja dele, e que nem isso conseguimos oferecer sem surru­piar uma parte para nós. Mas estou falando de uma des­coberta real, advinda da experiência pessoal.”

“Assim, em cer­to sentido, a estrada que nos leva de volta a Deus é a do esforço moral, a via da auto-superação. Mas, em outro sentido, não é o esforço que nos levará para casa. Toda a força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: "O Se­nhor tem de fazer isso. Não consigo."

“É a mudan­ça do sentimento de confiança em nossos próprios es­forços para um estado em que nos desesperamos com­pletamente e deixamos tudo nas mãos de Deus.”

“E, num outro sentido ainda, é claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não signifi­ca que devemos parar de nos esforçar. Confiar nele sig­nifica tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedecer-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser sal­vo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está es­perando ganhar o Paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determi­nada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do Paraíso.”


“O esforço moral sério é a única coisa que pode nos conduzir ao ponto de jogar a toalha. A fé em Cristo é a única coisa que pode nos sal­var do desespero nesse ponto: e, dessa fé, é inevitável que surjam boas ações.”

“A resposta a esse absurdo é que, se o que você chama de "fé" em Cris­to não implica dar atenção ao que ele disse, ela não é fé de maneira alguma — nem Fé nem confiança, mas ape­nas a aceitação mental de alguma teoria a seu respeito.”

Livro IVALÉM DA PERSONALIDADE OUOS PRIMEIROS PASSOS NA DOUTRINADA TRINDADE

1. CRIAR E GERAR

“Este mundo é como o ateliê de um grande escultor. Nós so­mos as estátuas, e corre por aí o boato de que alguns de nós, um dia, ganharão a vida.”


2. UM DEUS EM TRÊS PESSOAS

“Só os cristãos fazem idéia de como as almas humanas podem ser assumidas pela vida divina e continuar sendo elas mesmas — aliás, ser mui­to mais "elas mesmas" do que antes.
Avisei que a Teologia é um assunto prático. O obje­tivo único da nossa existência é ser assumidos pela vida divina.”

“...o simples cristão ajoelha-se e faz suas orações, tentando entrar em contato com Deus. Porém, se ele é cristão, sabe que o que o induz a orar é também Deus: Deus, por assim dizer, dentro dele.”

“Deus é também aquilo, dentro dele, que o impele — a força motriz. Deus, por fim, é a estrada ou a ponte que ele percorre para chegar a seu objetivo. Assim, toda a vida tríplice do Ser tripessoal en­tra em ação nesse quarto humilde onde um homem co­mum faz suas orações. O homem está sendo capturado por um tipo superior de vida — o que chamei de zoé ou vida espiritual: está sendo atraído para dentro de Deus pelo próprio Deus, sem deixar de ser ele mesmo.
E foi assim que começou a Teologia. As pessoas já conheciam Deus de forma mais ou menos vaga. Então veio um homem que dizia ser Deus; um homem que, no entanto, ninguém conseguia rejeitar como um luná­tico. Esse homem fez com que as pessoas acreditassem nele. Essas pessoas voltaram a encontrar-se com ele de­pois de tê-lo visto ser assassinado. Por fim, tendo-se cons­tituído numa pequena sociedade ou comunidade, essas pessoas de alguma forma descobriram a Deus dentro de si próprias, dizendo-lhes o que fazer e tornando-as capazes de atos que até então eram impossíveis. Quando entenderam tudo isto, elas chegaram à definição crista do Deus tripessoal.”


“Quando se trata do conhecimento de Deus, a ini­ciativa cabe inteiramente a ele. Se ele não se revelar, nada que você fizer o capacitará a encontrá-lo. E, na verda­de, ele se dá a conhecer muito mais a certas pessoas que a outras — não porque tenha predileções, mas porque é impossível que ele se revele ao homem cuja mente e cujo caráter estejam em más condições. Da mesma forma, os raios do sol, apesar de também não terem predile­ções, não se refletem tão bem num espelho empoeirado quanto num espelho polido.”


“Deus só pode se revelar verdadeiramente para ho­mens de verdade. Isso não significa apenas homens in­dividualmente bons, mas homens unidos entre si num único corpo, amando-se e auxiliando-se mutuamente, revelando Deus uns aos outros. Pois é assim que Deus quer que a humanidade seja: como os músicos de uma orquestra, como os órgãos de um corpo.
Em conseqüência, o único instrumento verdadei­ramente adequado para conhecer Deus é a comunidade cristã como um todo, a comunidade dos que juntos o aguardam.”

3. O TEMPO E ALÉM DO TEMPO

“Deus não precisa se afobar no fluxo de tempo deste universo, assim como um escritor não precisa vi­ver o tempo imaginário de seu romance. Ele pode dar atenção infinita a cada um de nós. Nunca teve de nos tratar como a uma massa. Você está sozinho na com­panhia dele como se fosse o único ser que ele tivesse criado. “

4. A BOA INFECÇÃO

“Da mesma maneira, temos de conceber que o Fi­lho, por assim dizer, desde sempre fluí do Pai, como a luz flui da lâmpada, ou o calor do fogo, ou os pensa­mentos da mente. Ele é a auto-expressão do Pai — o que o Pai tem a dizer. E nunca houve um tempo em que o Pai ficou calado. “

“Aquilo que nasce da vida conjunta do Pai e do Filho é uma pes­soa real; é, com efeito, a terceira das três pessoas de Deus.”

“Vendo a questão do outro lado, cada um de nós tem de penetrar nessa com­plexidade interna, assumir seu lugar nessa dança. Não existe outra maneira de se alcançar e usufruir a felici­dade para a qual fomos criados. Saiba você que não só as coisas más, mas também as boas, são contraídas como uma espécie de infecção. Se você quer se aquecer, tem de se aproximar do fogo; se quer se molhar, tem de en­trar debaixo d'água. Se quer a alegria, o poder, a paz e a vida eterna, tem de se aproximar ou mesmo penetrar naquilo que as contém. “

“A ofer­ta que o cristianismo faz se resume no seguinte: se dei­xarmos Deus agir, poderemos vir a compartilhar da vida de Cristo. Então, partilharemos de uma vida que foi gerada, não criada; uma vida que sempre existiu e sem­pre existirá. Cristo é o Filho de Deus. Se participarmos desse tipo de vida, também seremos filhos de Deus. Amaremos o Pai como o Filho o ama, e o Espírito San­to despertará em nós. Cristo veio a este mundo e se fez homem a fim de disseminar nos outros homens o tipo de vida que ele possui - por meio daquilo que chamo de "boa infecção". Todo cristão deve tornar-se um peque­no Cristo. O propósito de se tornar cristão não é outro senão esse.”


5. OS TEIMOSOS SOLDADINHOS DE CHUMBO


“O atual estado de coisas é o seguinte: os dois tipos de vida são não apenas completamente diferentes entre si (o que sempre foram e sempre serão), mas também opostos. A vida natural de cada um de nós é uma coisa egocêntrica, que quer ser paparicada e admirada, quer tirar vantagem das outras vidas e usar para seu proveito o universo inteiro.”

“E mais: assim como estão todos ligados uns aos outros, estão todos ligados a Deus. Agora mesmo, neste exato momento, todos os homens, mulhe­res e crianças do mundo inteiro só respiram e sentem por­que Deus, por assim dizer, os "mantém funcionando".
Logo, quando o Cristo se torna homem, não é o mesmo que se você se tornasse um determinado solda­dinho de chumbo. E como se algo que sempre afetou toda a massa da humanidade passasse, num determinado ponto, a afetá-la de maneira nova. A partir desse pon­to, o efeito se espalha por todo o gênero humano. Afe­ta não só as pessoas que viveram depois de Cristo, mas também as que viveram antes dele; afeta inclusive as que nunca ouviram falar dele.”

“A humanidade já foi "salva" em princípio. Nós, in­divíduos, temos de nos apropriar dessa salvação. Mas o trabalho pesado - que nunca conseguiríamos levar a cabo sozinhos - já foi feito. Não precisamos tentar esca­lar a vida espiritual pela nossa própria força, pois ela já desceu sobre a raça humana. Se simplesmente nos abrir­mos ao Homem que a possuiu em sua plenitude, Ho­mem que, apesar de ser Deus, também é verdadeira­mente humano, ele a fará funcionar em nós e por nós. Lembre-se do que eu disse sobre a "boa infecção". Um Ser da nossa raça já foi infectado por essa nova vida; se nos aproximarmos dele, seremos infectados também.”

DUAS NOTAS

“O cristianismo não concebe os indivíduos humanos como meros membros de um grupo, ou itens numa lista, mas como órgãos num cor­po - uns diferentes dos outros, e cada qual oferecendo uma contribuição própria e insubstituível.”

O DIVINO FINGIMENTO

“Com muita freqüên­cia, a única maneira de adquirir uma qualidade consis­te em comportar-se como se já a tivesse.”

“Porém, acima de tudo, Cristo opera em nós através dos outros seres humanos, e neles através de nós.”


“Mas nunca, nunca deposite toda a sua fé num ser humano, mesmo que seja a melhor e a mais sá­bia pessoa do mundo. Existe uma porção de coisas interessantes que você pode fazer com areia; mas não vá construir uma casa sobre ela.”


“Trata-se de um Ho­mem vivo, ainda tão homem quanto você e ainda tão divino quanto era quando criou o mundo, que realmen­te chega para interferir em seu eu mais profundo, para matar em você o homem velho e substituí-lo pelo tipo de alma que ele mesmo tem.”

“Por outro lado, será que o que um homem faz quando é pego com a guarda baixa não é o melhor sinal de que tipo de homem ele é na realidade? Não é a verdade que sempre se evidencia quando o homem não tem tempo de vestir seu disfarce?”

“Se (como eu disse an­tes) o que mais importa é o que somos, não o que faze­mos - se, com efeito, o que fazemos é importante so­bretudo na medida em que revela o que somos -, a con­clusão inescapável a que chego é que a mudança mais urgente a que devo me submeter é uma mudança que meus esforços diretos e voluntários não podem realizar.”

“Depois dos primeiros passos na vida cristã, nos damos conta de que tudo o que realmente precisa mudar na alma só pode ser feito por Deus.”

“Deus olha para você como se você fosse um pequeno Cristo. O Cristo está de pé a seu lado para operar essa transformação em você.”

8. O CRISTIANISMO É DIFÍCIL OU FÁCIL?

“No capítulo antetior, consideramos a idéia cristã de "revestir-se de Cristo", ou seja, de "vestir-se" de filho de Deus para tornar-se enfim um filho de verdade.”

“E todo o cristianismo. O cristia­nismo não nos oferece nada além disso.”

“Não se engane — se você está realmente disposto a tentar aten­der a todas as exigências que se impõem ao seu ser natu­ral, saiba que não lhe restará o suficiente para continuar vivendo. Quanto mais você obedecer à sua consciência, tanto mais ela lhe cobrará. “

“A via cristã é diferente: é mais difícil e é mais fácil. Cristo diz: "Quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma par­te do seu trabalho: quero você. Não vim para atormen­tar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero ras­par, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. En­tregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocen­tes - o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo. Na verdade, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu."

“O caminho do covarde é também o caminho mais perigoso.”

“E fácil perder esse fato de vista. E fácil pensar que a Igreja tem muitos objetivos diferentes - cuidar da educação, construir edifícios, en­viar missões, organizar cerimônias.”

“Do mesmo modo, a Igreja só existe para reabsorver os homens em Cristo, para fazer deles pequenos Cristos. E, se isso não acontece, as catedrais, o clero, as missões, os sermões, a própria Bíblia não passam de uma perda de tempo.”

AVALIAR O CUSTO

"A única ajuda que lhes darei é a ajuda de que vocês precisam para ser per­feitos. Pode até ser que vocês queiram menos que isso; mas eu não lhes darei menos."

“...o mesmo Auxiliador que não aceita ao final nenhuma outra coisa que não seja a perfeição absoluta também se compraz com o mais ínfimo e titubeante esforço que você empreende para cumprir o menor dos seus deveres.”

"Deus se agrada facilmente, mas não se satisfaz com facilidade". (George MacDonald),

“A conseqüência prática é a seguinte: por um lado, mesmo que Deus exija a perfeição, você não precisa em absoluto se desanimar com suas tentativas atuais de ser bom, ou mesmo com seus atuais fracassos. Toda vez que você fracassar, ele o colocará novamente em pé. E ele tem perfeita consciência de que seus próprios esforços não o aproximarão em nada da perfeição.”

“Por outro lado, nenhum grau de santidade ou heroísmo, nem mesmo os graus alcançados pelos maio­res entre os santos, está além do que ele se determina a produzir em cada um de nós no final. A tarefa não fi­cará terminada nesta vida; mas ele pretende nos levar tão longe quanto possível antes de morrermos.”

“Você pensava que seria transfor­mado num simpático chalezinho, mas ele está construin­do um palácio no qual pretende habitar em pessoa.”


AS PESSOAS OU NOVAS CRIATURAS

“Se o cristia­nismo é verdadeiro, é necessário que (a) qualquer cristão seja melhor do que ele mesmo seria se não fosse cris­tão; e (b) todo aquele que se tornar cristão seja melhor do que era antes.”

“As únicas coisas que podemos conservar são as que entregamos a Deus. As que guardamos para nós são as que perderemos com certeza.”


“Um dos perigos de se ter muito di­nheiro é que você pode ficar satisfeito com o tipo de fe­licidade que o dinheiro pode comprar e, assim, pode deixar de perceber o quanto precisa de Deus. Quando tudo parece depender do simples ato de assinar um che­que, você pode se esquecer de que, a cada momento, depende totalmente de Deus.”

“E muito diferente a situação das pessoas más e de­sagradáveis - das pessoas pequenas, vis, tímidas, perver­tidas, covardes e solitárias, ou das passionais, sensuais e desequilibradas. Quando elas fazem qualquer tentativa de ser boas, percebem em dois tempos que precisam de ajuda. Para elas, é ou Cristo ou nada. É tomar a cruz e segui-lo — ou cair no desespero. São elas as ovelhas per­didas: ele veio especialmente para encontrá-las. São elas (num sentido muito verdadeiro, e terrível) os "pobres": ele as declarou bem-aventuradas. São elas o "bando de esfarrapados" com os quais ele caminha - e é claro que os fariseus ainda dizem, como disseram desde o início: "Se o cristianismo fosse algo sério, essas pessoas não se­riam cristãs!"


“Mas, se você é um dos pobres - envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulga­res e brigas gratuitas -, sobrecarregado, independente­mente da sua vontade, por uma abominável perversão sexual - espicaçado noite e dia por um complexo de in­ferioridade que o leva a perder a paciência com seus me­lhores amigos -, não se desespere. Ele está bem ciente de tudo isso. Você é um dos pobres que ele abençoou. Ele conhece a máquina ruim que você tenta dirigir. Vá em frente. Faça o possível. Um dia (talvez em outro mundo, mas talvez muito antes disso) ela jogará essa máquina no monturo de ferro-velho e lhe dará uma nova. E en­tão você poderá nos surpreender a todos — e inclusive a si mesmo: pois terá aprendido a dirigir numa escola bem difícil. (Alguns dos últimos serão os primeiros, e alguns dos primeiros serão os últimos.)”


“Deus se fez homem para que as criaturas se tornassem filhos: não simples­mente para produzir homens melhores do tipo antigo, mas para produzir um novo tipo de homem.”


AS NOVAS CRIATURAS

“O que acontece com Cristo e conosco é algo seme­lhante a isso. Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de "nós mesmos" e deixamos que ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aqui­lo que realmente somos. Ele é tão grande que milhões e milhões de "pequenos Cristos", todos diferentes, não se­rão suficientes para expressá-lo plenamente. Foi ele que os fez a todos. Ele inventou — como um escritor inventa os personagens de um romance - todos os homens di­ferentes que vocês e eu devemos ser. Nesse sentido, nos­sos verdadeiros seres estão todos nele, esperando por nós. De nada vale procurar "ser eu mesmo" sem ele. Quan­to mais resisto a ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de "eu mesmo" é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram ini­ciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim.”

“E só quando me volto para Cristo, quando me entrego à personalidade dele, que começo a ter uma verdadeira personalidade minha.”


“Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu cor­po inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadei­ramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”

[1] "The longest way round", citação tirada de Cristianismo puro e simples.
[2] "There are no ordinary people", citação tirada de "The Weight of Glory", sermão profe­rido por Lewis em 8 de junho de 1941.
[3] "Poisoned by a wretched upbringing", citação tirada de Cristianismo puro e simples.
[4] "How monotonously alike", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Em cada vida
Há uma pausa que é melhor
que a corrida para a frente,
Melhor que um trabalho braçal
ou que a obra mais importante:
É ficar quieto
diante da Soberana Vontade.




Há uma corrida que é melhor
do que um ardente discurso,
Melhor que suspirar
ou no deserto chorar:
É quieto estar
diante da Soberana Vontade.




A pausa e a corrida cantam
uma canção a dois.
Em, uníssono bem suave, durante todo o tempo:
O alma humana, o plano da obra de Deus
Prossegue, não precisa de ajuda do homem!
Fique quieto, e verás!
Aquieta-te e saberás!

(V. Raymond Edman, The Disciplines of Life - As disciplinas da Vida - citado por
Charles R. Swndoll em Intimidade com O Todo Poderoso)

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